domingo, 21 de novembro de 2010

Ver Sem Ler

Agosto. Mês de cachorro louco. Mês que leva os velhos, como dizia minha avó Laura, que quase escapou do presságio, mas falecida no 31, de 1973. Os que sobrevivem, carregam-se para fora e, enferrujados, dividem o sol com a geada. No eterno brincar de faz/desfaz, a geada evapora, o sol se expande, e há sempre novos e velhos anciões, nos dias.

Por detrás do muro escolar, seriamente brincam as crianças. Treinam. Recolhem falas, conselhos feitos para serem desobedecidos, formas, cores e escritos também. Não só elas. Não só ali.

Na mesma praça, a mulher não fala com outrem, mal pisca. Escreve... Escreve... Por retas e curvas. Caderno brochura, desencapado, cheio de orelhas, sessenta folhas parecendo mil. Bic azul. Por certo lamenta o alto preço do pinhão que futuras gerações não provarão, registra a fome de alimento e amor dos cães abandonados, o pensamento envergonhado dos omissos, as negociatas dos agiotas-de-boi, o sorriso desdentado dos mendigos -tão diferente do sorriso dos bebês - o lagartear dos metanóis de barriga vazia após o almoço da minoria privilegiada, a esperança dos jovens enamorados e, nesse segundo, sorri . Virando a página, posso vê-la criança, andarilha e descalça chegando à escola itinerante. A gramática afastou-a da escola. Mas o gosto de andar e rabiscar permaneceram. Guardará seus cadernos? Onde? Para quê?

Antes e depois do mês de agosto, para reconhecer os segredos que não são apenas dela, deixando ao papel as letras mortas, contemple os olhos gelados desta mulher gorda, de cabeleira prateada e neles, percorra o branco, pare na menina, recolha as linhas e aviste a Luz Daquele que tudo vê!

Escrito por Vera Márcia Silva dos Santos

Nenhum comentário:

Postar um comentário