Agosto. Mês de cachorro louco. Mês que leva os velhos, como dizia minha avó Laura, que quase escapou do presságio, mas falecida no 31, de 1973. Os que sobrevivem, carregam-se para fora e, enferrujados, dividem o sol com a geada. No eterno brincar de faz/desfaz, a geada evapora, o sol se expande, e há sempre novos e velhos anciões, nos dias.
Por detrás do muro escolar, seriamente brincam as crianças. Treinam. Recolhem falas, conselhos feitos para serem desobedecidos, formas, cores e escritos também. Não só elas. Não só ali.
Na mesma praça, a mulher não fala com outrem, mal pisca. Escreve... Escreve... Por retas e curvas. Caderno brochura, desencapado, cheio de orelhas, sessenta folhas parecendo mil. Bic azul. Por certo lamenta o alto preço do pinhão que futuras gerações não provarão, registra a fome de alimento e amor dos cães abandonados, o pensamento envergonhado dos omissos, as negociatas dos agiotas-de-boi, o sorriso desdentado dos mendigos -tão diferente do sorriso dos bebês - o lagartear dos metanóis de barriga vazia após o almoço da minoria privilegiada, a esperança dos jovens enamorados e, nesse segundo, sorri . Virando a página, posso vê-la criança, andarilha e descalça chegando à escola itinerante. A gramática afastou-a da escola. Mas o gosto de andar e rabiscar permaneceram. Guardará seus cadernos? Onde? Para quê?
Antes e depois do mês de agosto, para reconhecer os segredos que não são apenas dela, deixando ao papel as letras mortas, contemple os olhos gelados desta mulher gorda, de cabeleira prateada e neles, percorra o branco, pare na menina, recolha as linhas e aviste a Luz Daquele que tudo vê!
Escrito por Vera Márcia Silva dos Santos
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